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Desde que surgiram, há 21 anos, Luciana Martins e Gerson de Oliveira fazem um trabalho situado no limite entre o design e a arte. Sem medo de experimentar e de abrir caminhos, primam por uma criação inteligente. Seus objetos têm o poder de conciliar a concisão com a capacidade de surpreender.

Uma cadeira que se esconde num cubo preto e se revela apenas ao receber o corpo do usuário; bolas de sinuca que são deslocadas de sua função para servirem de cabides; planos que desenham percursos múltiplos: são vários os exemplos de uma produção que instiga e confunde a nossa percepção, fazendo com que o nosso relacionamento com os objetos não seja de consumo, mas de fruição.

É nessa capacidade de oferecer mais do que a função, de brincar com a nossa percepção e nos fazer pensar, de mexer com nossos parâmetros que, a meu ver, reside a pulsão artística do trabalho da Ovo, tornando seus objetos e móveis algo para usar, mas também para ver e para colecionar.

Por mais instigantes que sejam à primeira vista, as peças se revelam, no uso, perfeitamente funcionais – e esse acaba sendo mais um elemento da surpresa; uma confirmação de que não abrem mão de ser design. Elas em geral são mutantes. Permitem diferentes composições, configurações e disposições, para desejos e necessidades que variam ao longo do dia ou da vida. São objetos híbridos, dinâmicos, flexíveis, que rompem as fronteiras das classificações. A liberdade se manifesta também na escolha dos materiais. Eles passeiam à vontade entre os metais (aço inox, alumínio, ferro…), as madeiras (maciça, laminada, mdf), os tecidos, os vidros e os acrílicos.

Sem cair na assepsia do modernismo tal como foi lido por tantos, como um grilhão a impedir vôos e poesia, os móveis e objetos desenvolvidos por Luciana Martins e Gerson de Oliveira têm clareza de pensamento e de construção; buscam a forma justa, sintética e depurada da criação divina que escolheram para dar nome a seu estúdio, como uma profissão de fé: ovo.